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Vacinação reduz câncer de colo do útero

Estudo brasileiro mostra redução em casos de câncer de colo do útero após vacinação contra HPV. Acesse e saiba mais!
Por: Rede D'Or
Publicado em • Atualizado em

Lancet Global Health: incidência de câncer de colo uterino no Brasil em estudo com mais de 60 milhões de mulheres/ano.

O câncer de colo do útero permanece entre as principais causas de morbimortalidade oncológica feminina em países de baixa e média renda. No Brasil, apesar da existência de estratégias preventivas estabelecidas, a doença ainda apresenta elevada incidência, sendo o terceiro tipo de câncer mais incidente em brasileiras, causando sobrecarga significativa sobre o sistema de saúde nacional. Entretanto, não há evidência no mundo real do impacto da vacinação em países de baixa e média renda onde o câncer de colo uterino.

Um recente estudo populacional brasileiro publicado na The Lancet Global Health, avaliou o impacto do programa nacional de vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) na incidência de câncer de colo do útero e de neoplasia intraepitelial cervical grau 3 (NIC3). A análise demonstrou reduções expressivas desses desfechos em mulheres jovens, mesmo em uma faixa etária não contemplada pelas diretrizes nacionais de rastreamento [1].

Neste artigo, você encontrará os principais achados do estudo, com foco nos dados quantitativos, no contexto brasileiro e na relevância clínica desses resultados para a prática médica.

Câncer de colo do útero e infecção por HPV

O câncer de colo do útero se desenvolve a partir de lesões precursoras persistentes do epitélio cervical, especialmente a NIC3. A infecção pelo HPV está associada à quase totalidade dos casos diagnosticados.

Do ponto de vista epidemiológico, o atual estudo reforça aspectos já conhecidos da história natural da doença, como:

  • Associação direta entre infecção persistente por HPV oncogênico e progressão para lesões de alto grau;
  • Maior carga da doença em países de baixa e média renda;
  • Impacto das desigualdades de acesso ao rastreamento e à prevenção primária.

No Brasil, esses fatores se refletem em elevada incidência e em diagnóstico frequentemente tardio em determinados grupos populacionais.

Programa nacional de vacinação contra o HPV

A vacinação contra o HPV foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações em 2014, com a introdução da vacina quadrivalente. Desde então, o programa passou por ajustes sucessivos em relação ao público-alvo e ao esquema vacinal.

Principais marcos do programa incluem:

  • Início da vacinação em meninas de 11 a 13 anos, em 2014;
  • Ampliação progressiva para meninas e meninos de 9 a 14 anos;
  • Mudanças no esquema vacinal ao longo do tempo;
  • Oferta gratuita da vacina pelo SUS em todo o território nacional;
  • Em 2014 a cobertura vacinal atingiu valores próximos de 100% nos grupos etários (meninas de 11 a 13 anos);
  • A partir de 2016 observou-se redução da cobertura com níveis abaixo de 2016 em determinadas faixas etárias até 2024.

Desenho do estudo e resultados

O estudo incluiu todas as mulheres com idades entre 20 e 24 anos, nascidas entre 1994 e 2003 com diagnóstico de câncer de colo invasivo, NIC3 e câncer de mama (controle negativo) no período de 2019 a 2023, utilizando duas bases nacionais do SUS (Painel Oncologia e o Sistema de Informações Hospitalares do SUS). Foram utilizadas as estimativas de população feminina do IBGE por faixa etária para os cálculos de incidência e o número de doses de vacinas foi obtido pelo Programa Nacional de Imunização.

População avaliada e carga da doença

Indicador Valor
Mulheres-ano analisadas 60,6 milhões
Casos de câncer de colo do útero 1.318
Casos de NIC3 2.132
Incidência média de câncer 0,44 por 100.000 mulheres/ano
Incidência média de NIC3 0,69 por 100.000 mulheres/ano

Incidência de câncer de colo do útero por coorte de nascimento

As análises demonstraram redução progressiva da incidência de câncer de colo do útero nas coortes com maior elegibilidade para a vacinação. Esse padrão foi observado tanto para câncer invasivo quanto para lesões precursoras de alto grau.

Incidência de câncer de colo de útero e NIC3 por coorte

Coorte de nascimento Elegibilidade vacinal Câncer de colo de útero NIC3
1994–1998 Não elegível 0,52 (0,49–0,56) 0,87 (0,83–0, )
1999 Não elegível 0,50 (0,45–0,56) 0,73 (0,67–0,81)
2000 Parcial 0,28 (0,23–0,34) 0,36 (0,31–0,42)
2001–2003 Elegível 0,19 (0,15–0,23) 0,27 (0,22–0,32)

A comparação entre as coortes mostra uma redução progressiva das taxas de incidência à medida que aumenta a elegibilidade para a vacinação. Mulheres nascidas entre 2001 e 2003, plenamente elegíveis ao programa, apresentaram incidência de câncer de colo de útero aproximadamente três vezes menor do que aquelas nascidas entre 1994 e 1998. Padrão semelhante foi observado para NIC3, indicando impacto consistente da vacinação tanto sobre lesões precursoras quanto sobre doença invasiva.

A comparação entre a coorte 2001–2003 e a coorte de referência 1994–1998 evidenciou redução expressiva dos desfechos analisados:

  • redução de 58% na incidência de câncer de colo de útero;
  • redução de 67% na incidência de NIC3;
  • ausência de associação consistente com o desfecho de controle negativo.

Incidência associada à vacinação contra HPV

Desfecho Razão de incidência (IRR) Redução estimada
Câncer de colo de útero 0,42 (0,27–0,66) 58%
NIC3 0,33 (0,20–0,53) 67%
Câncer de mama* 0,82 (0,52–1,30) Não associada

Câncer de mama utilizado como desfecho de controle negativo.

Os resultados podem ser resumidos em três pontos principais:

  • menor incidência nas coortes com vacinação completa;
  • redução intermediária nas coortes com elegibilidade parcial;
  • ausência de redução consistente nas coortes não vacinadas.

Discussão

Embora a maioria das informações anteriores sobre o impacto potencial da vacinação contra o HPV em países de baixa e média renda tenha vindo de estudos de modelagem matemática, este estudo fornece evidências do mundo real de que os programas de vacinação podem reduzir substancialmente a incidência de câncer cervical em países de baixa e média renda.

A redução de lesões cervicais de alto grau após o programa de vacinação contra o HPV no Brasil foi semelhante à eficácia da vacina contra o HPV relatada na Suécia para mulheres vacinadas em idade semelhante. No entanto, o impacto foi menos pronunciado do que a redução observada no programa da Inglaterra, que alcançou uma cobertura vacinal maior para o esquema de três doses em comparação com a Suécia e o Brasil.

Além disso, devido à introdução mais recente do programa de vacinação contra o HPV no Brasil, nossa avaliação foi limitada a mulheres de 20 a 24 anos. Essa faixa etária tem uma baixa incidência de câncer cervical e não é alvo do rastreamento cervical de rotina no Brasil. O rastreamento nessas idades mais jovens é normalmente motivado pela presença de sintomas ou a pedido da paciente. Consequentemente, muitas lesões pré-cancerosas assintomáticas ou cânceres em estágio inicial permanecem não detectados, reduzindo a incidência observada.

No Brasil, o rastreamento citopatológico é recomendado a partir dos 25 anos. A população analisada no estudo (20 a 24 anos) não integra rotineiramente os programas de rastreamento, o que torna os achados particularmente relevantes. Mesmo nesse contexto, a incidência de câncer de colo de útero apresentou redução expressiva nas coortes vacinadas. Esse dado sugere que o impacto da vacinação já ocorre precocemente, antes da inclusão formal no rastreamento organizado.

A interpretação das razões de incidência reforça a magnitude do efeito observado. Valores de IRR inferiores a 1 indicam menor incidência nos grupos vacinados, com reduções estatisticamente consistentes para câncer de colo de útero e NIC3. A ausência de redução significativa no desfecho de controle negativo sustenta que o efeito observado é específico da vacinação contra o HPV e não reflexo de mudanças gerais no acesso ao diagnóstico ou na organização dos serviços de saúde.

Grande parte das evidências sobre a efetividade da vacinação contra o HPV provém de países de alta renda. Este estudo brasileiro demonstra impacto mensurável em um país de renda média, com desigualdades regionais, rastreamento oportunístico e ampla dependência do sistema público de saúde. A redução observada em mais de 60 milhões de mulheres-ano reforça a aplicabilidade da vacinação contra o HPV em contextos semelhantes ao brasileiro, contribuindo para a redução da carga da doença em populações historicamente mais vulneráveis.

Embora o estudo utilize dados agregados e não avalie a efetividade individual da vacina, a consistência dos resultados entre diferentes bases de dados e análises de sensibilidade sustenta a robustez das conclusões. Em conjunto, esses dados ampliam o corpo de evidências sobre o impacto da vacinação contra o HPV no Brasil e fornecem informações relevantes para a prática médica e para estratégias de prevenção do câncer de colo de útero.

Limitações do estudo

É importante destacar que o estudo apresenta algumas limitações, como:

  • Limitações na qualidade e na granularidade dos dados do estudo;
  • Registro agregado das doses da vacina HPV até 2020, gerando imprecisões nas coberturas;
  • Coberturas acima de 100% em 2014, possivelmente por subestimação populacional ou erros de alocação;
  • Painel Oncologia restrito aos casos do SUS, com exclusão do setor privado.
  • Subestimação da carga absoluta da doença, com preservação das reduções relativas entre coortes;
  • Ausência de dados sobre CIN2;
  • Uso limitado de registros populacionais de câncer, com baixa cobertura e atualização insuficiente.

Vacina HPV nonavalente disponível no Richet

O Richet disponibiliza a vacina HPV nonavalente (GARDASIL 9), uma vacina inativada recombinante indicada para mulheres e homens entre 9 e 45 anos. O imunizante oferece proteção contra nove tipos de HPV (6, 11, 16, 18, 31, 33, 45, 52 e 58), incluindo tipos associados a verrugas genitais e a neoplasias do colo de útero e de outros sítios anogenitais.

A vacina pode ser administrada concomitantemente a outras vacinas e é contraindicada para gestantes. Sua disponibilidade no Richet permite a incorporação da vacinação ao cuidado preventivo, alinhada às evidências atuais sobre a redução do risco de câncer de colo de útero associada à imunização.

Referência:

[1] Cerqueira-Silva T, Barral-Netto M, Boaventura VS. Effect of Brazil’s national human papillomavirus vaccination programme on the incidence of cervical cancer and cervical intraepithelial neoplasia grade 3 in women aged 20-24 years: a population-based study. Lancet Glob Health. 2025 Oct;13(10):e1715-e1722. doi: 10.1016/S2214-109X(25)00279-7