Revisão discute uma abordagem integrada e centrada na paciente com dor pélvica crônica

A dor pélvica crônica representa um dos desafios mais frequentes e complexos na prática ginecológica. Estima-se que afete entre 15% e 26% das mulheres ao longo da vida, com repercussões funcionais, sexuais, emocionais e ocupacionais relevantes. Trata-se de quadro frequentemente persistente, associado a elevado número de consultas, exames diagnósticos, uso de medicamentos e intervenções cirúrgicas, muitas vezes sem resolução satisfatória dos sintomas.
Uma revisão publicada na revista Obstetrics & Gynecology (2026) propõe uma abordagem integrada e centrada na paciente para avaliação e tratamento da dor pélvica crônica.
Dor pélvica crônica: definição e complexidade clínica
Não há consenso absoluto entre sociedades científicas quanto à duração mínima necessária para caracterizar dor pélvica crônica. O American College of Obstetricians and Gynecologists define como dor percebida como originária de órgãos ou estruturas pélvicas, com duração usualmente superior a seis meses, frequentemente associada a repercussões cognitivas, comportamentais, sexuais e emocionais.
No novo estudo de revisão, os pesquisadores enfatizam que a dor pélvica não constitui uma entidade única, mas um sintoma multifatorial. A maioria das pacientes apresenta múltiplas condições coexistentes, ginecológicas e não ginecológicas. Essa sobreposição explica, em parte, a baixa correlação entre achados anatômicos isolados e intensidade da dor relatada.
Mecanismos de dor e sensibilização central
A revisão organiza a compreensão fisiopatológica da dor pélvica com base em três mecanismos:
- Dor nociceptiva: decorrente de ativação de nociceptores por inflamação ou lesão tecidual;
- Dor neuropática: resultante de lesão do sistema somatossensorial;
- Dor nociplástica: associada a alteração na modulação central da dor, com amplificação de sinais ascendentes ou redução da inibição descendente.
Esses mecanismos não são mutuamente exclusivos e frequentemente coexistem. A sensibilização central, descrita como característica comum das chamadas “chronic overlapping pain conditions”, contribui para dor persistente, hipersensibilidade generalizada, fadiga, distúrbios do sono e comprometimento cognitivo. A compreensão do mecanismo predominante em cada paciente orienta a seleção terapêutica e reduz a probabilidade de intervenções repetidas de baixo valor.
Abordagem clínica da dor pélvica crônica
Pacientes com dor pélvica crônica frequentemente relatam experiências prévias de estigmatização ou invalidação de seus sintomas.
A abordagem clínica recomendada deve incluir:
- Escuta ativa e validação da experiência da paciente;
- Discussão transparente sobre expectativas realistas;
- Tomada de decisão compartilhada;
- Metas terapêuticas centradas em funcionalidade e qualidade de vida.
Figura: Abordagem clínica estruturada e causas associadas aos achados do exame físico

Nota: Adaptado de As-Sanie, et al., (2026).
Entre as principais etiologias ginecológicas causadoras de dor pélvica crônica destacam-se:
- Endometriose pélvica e extra pélvica;
- Adenomiose uterina;
- Leiomiomatose uterine;
- Cistos ovarianos
- Aderências pélvicas pós operatórias ou não
- Vaginites
- Atrofia vaginal.
- Alodinia vulvar
A endometriose, por exemplo, afeta aproximadamente 10% das mulheres em idade reprodutiva e é identificada em 28–49% das pacientes com dor pélvica. A intensidade dos sintomas não se correlaciona de forma consistente com extensão ou localização das lesões.
Causas não ginecológicas a serem instigadas incluem:
- Dores músculo-esqueléticas e miofasciais do assoalho pélvico (identificada em 58–79% das pacientes com dor pélvica);
- Dor urológica (bexiga / uretra): cistite, cálculo vesical, uretral.
- Síndrome da bexiga dolorosa/cistite intersticial (presente em 15,5–78,3% das mulheres com dor pélvica);
- Síndrome do intestino irritável (8–41% das pacientes com dor pélvica);
- Dores neuropáticas cicatriciais ou outras neuralgias (p.ex do nervo pudendo) ;
- Distúrbios venosos pélvicos.
A sobreposição entre essas condições é frequente. Pacientes com endometriose apresentam risco significativamente aumentado de outras síndromes dolorosas crônicas.
Diagnóstico por imagem
Exames de imagem, especialmente ultrassonografia transvaginal, constituem método inicial recomendado para identificação de causas estruturais. Ressonância magnética deve ser reservada para indicações específicas.
Tratamento multimodal e individualizado
A revisão enfatiza que a dor pélvica crônica raramente é resolvida por intervenção única. O manejo deve integrar estratégias farmacológicas e não farmacológicas, ajustadas ao mecanismo predominante de dor.
Entre as opções discutidas estão:
- Supressão hormonal para condições estrogênio-dependentes;
- Fisioterapia do assoalho pélvico, associada a redução de 38–70% na dor pélvica não cíclica e melhora funcional significativa;
- Neuromoduladores, com base em evidências extrapoladas de outras síndromes dolorosas crônicas;
- Terapias comportamentais e psicológicas, associadas à redução de aproximadamente 24% da dor e melhora da função sexual;
- Intervenções cirúrgicas direcionadas a patologias específicas, quando indicadas.
Procedimentos como histerectomia apresentam taxas de dor persistente variando de 12% a 68%, conforme revisão sistemática citada no artigo, reforçando que cirurgia não garante resolução do quadro. A abordagem centrada na paciente e sustentada no longo prazo associa-se a melhores desfechos funcionais, mesmo quando a resolução completa da dor não é alcançada.
É importante destacar que esta revisão não constitui diretriz clínica formal. Trata-se de síntese especializada da literatura com propostas estruturadas de avaliação e manejo, devendo ser interpretada em conjunto com recomendações de sociedades científicas e contexto clínico individual.